Adaptação Escolar com Afeto

Ser mãe de uma criança em adaptação na escola não é algo simples.

A Isabella fez 6 anos e foi para o primeiro ano do ensino fundamental.

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Por essa razão ela saiu da escola pequenina e aconchegante que ela estudava, com um total de 35 alunos (somando todas as crianças do período que ela estudava, do berçário ao jardim de infância), e começou a estudar em uma escola grande, onde só na sala dela estudam 24 crianças.
As aulas iniciaram no dia 26 de janeiro, uma quinta feira.
Ela estava empolgada e radiante. Entramos na escola, nos dirigimos até a sala de aula onde ela iria estudar.
A professora dela estava aguardando as crianças na porta da sala com um olhar  sereno e um sorriso acolhedor.
A Bella entrou na sala, olhou, escolheu o lugar onde iria sentar e voltou para me dar tchau.
Foi nessa hora que ela se desesperou. Começou a chorar muito e com grande sofrimento.
Ela dizia que iria ficar com saudades de mim.
Conversei com ela, pedi ajuda a professora e a um amiguinho dela que acabou caindo na mesma sala que ela.
Esse amigo segurou a mão dela e a levou para dentro da sala. A professora a abraçou e ela ficou lá chorando mas entendendo que eu precisava ir.
Comecei a achar que toda essa mudança seria um sofrimento muito grande para ela.
Na sexta feira dia 27 foi a mesma coisa. Muito choro e sofrimento.
No final da aula peguei a Bella na escola e fomos almoçar na casa do amiguinho que me ajudou no primeiro dia.
Enquanto conversava com a mãe desse amiguinho (somos amigas desde pequenas), ela me deu a idéia de enviar no estojo da Bella um lenço com o meu perfume. Não sabia se daria certo mas gostei da sugestão.
No final de semana conversei bastante com ela.
Disse que eu enviaria um lenço com meu perfume, assim todas as vezes que ela sentisse saudade era só cheirar o lencinho.
Ela gostou e disse para eu fazer isso mesmo ahahahaha.

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Voltamos do final de semana e na segunda  30 de janeiro, foi dia de testar a nova estratégia.
Entrei com ela na escola e a deixei com a auxiliar da professora.
Dei abraços e beijos e disse que precisava ir.
Ela ameaçou chorar novamente. Então eu disse: – Filha a mamãe colocou o lencinho no seu estojo como a gente combinou.
Ela pediu pra olhar.
Peguei o estojo, abri e deixei ela cheirar o lenço.
Ela falou: – Mãe guarda, guarda, assim não sai o cheiro.
Hahahahaha.
Falei para ela: – Não esquece que você é forte e corajosa.
Dei mais um beijo e sai sem olhar para trás (com a maior vontade de olhar e agarra-la, confesso hahahahahaha).
Na lancheira mandei um recadinho escrito “Te Amo” para alegrar o coração dela na hora do intervalo.
Voltei para buscá-la na escola e não teve choro.
No carro perguntei sobre o lenço e ela disse: – Mamãe cheirei todas as vezes que senti saudades.
Terça-feira tudo foi melhor ainda.
Chegamos e ao dar tchau ela quis alguns abraços a mais.
Disse que ficaria com saudades e eu só a lembrei o quanto ela é forte e corajosa. Ela segurou a mão da auxiliar e me deu tchau.
E assim eu fui:
O lencinho foi novamente no estojo e na lancheira um novo recadinho surpresa.
Quando a busquei na escola estava ótima, muito animada e disse: – Mamãe hoje eu quase não precisei cheirar o lencinho.
Na quarta ela me deu tchau com um beijo longo e entrou, sem reclamar e sofrer.
O lencinho continua no estojo, até ela dizer que não precisa mais.
Os recadinho continuam indo na lancheira sempre com palavras de carinho e encorajamento.

Em razão desse resultado tão positivo, perguntei a minha amiga Sophie Colombo Souza,que sempre me ajudou na educação da Bella, sobre esse processo do lencinho e pedi dicas a ela, de como tornar a adaptação mais leve.

“O lindo caminho percorrido pela Bella e pela Lú conta de muitas coisas que o “novo” pode gerar… angústia, insegurança, medo, mas também uma ótima oportunidade para crescer!

O Novo pode separar a criança do que é habitual, trazer para ela a sensação de que ela perdeu algo. Mas também, por outro lado, dá a oportunidade para que ela conheça o mundo, se perceba, perceba suas sensações (frio na barriga, aperto no coração….) e também possa falar sobre elas.

Aproveite das situações de conflito como uma oportunidade para crescimento de seu filho e seu também.

A criança dizer o que sente e como sente é uma conquista preciosa, além de uma possibilidade para quem escuta (pais, professores, amigos) poder dar atenção e ajudar ela a entender melhor aquele “novo” que esta acontecendo, tanto no mundo externo (ambiente) como no mundo interno (emoções). No caso de Bella, ela encontrou a palavra “saudade” para representar o que sentia. Incentive seu filho a dizer o que está sentindo e como está sentindo.

Quando nomeamos, tornamos aquilo conhecido, passa-se a saber, e tanto a criança, como os outros podem entender (pois tem nome).

Assim a criança se sente escutada e vai se conhecendo, descobrindo suas emoções, se identificando com outros que também sentem (exemplo do amigo que veio ajudar a Bela) e podendo compartilhar (por pra fora) o que esta acontecendo por dentro (mundo interno).

Ajudar a criança a identificar e nomear essas sensações facilita a jornada do auto conhecimento.

Nessas situações de adaptação é bastante comum que as crianças sintam um friozinho ou uma dor na barriga, um aperto no peito e algumas vezes elas não dizem, mas expressam com o corpo (pondo a mão na barriga, segurando algo forte nas mãos, se auto abraçando), a linguagem corporal também fala muito! Você pode ser uma ponte para ajudá-las a compreender o que seu corpo está expressando.

A Bella expressou bastante angústia (com sua fala, com seu choro), o que alertou a mãe da necessidade de um apoio para construir aquelas aprendizagens. Mas é importante ressaltar que as crianças constroem mecanismos de defesa, proteção e resiliência (capacidade de lidar com conflitos) incríveis! Algumas vezes necessitam de apoio, porém outras, dão conta de lidar com suas angústias sozinhas! Por isso é muito importante que os pais confiem que seus filhos são capazes de lidar com as situações difíceis e digam isso para eles.

Quando a Luciana disse para a Bella “você é forte e corajosa”, ela a empoderou de que ela era capaz de lidar com aquilo… foi apenas o trampolim para a Bella encontrar a força que tinha dentro de si! Como é importante sermos trampolins para nossas crianças, e para isso, precisamos deixá-las e encorajá-las a “pular”. Elas saberão que vocês sempre estarão alí, junto com elas (as vezes não fisicamente, mas dentro delas), e isso as dá coragem e força!

A estratégia do lenço foi uma idéia muito sensível e atenciosa da mãe que ajudou a família! O lencinho funcionou como uma apoio para cuidar de muitos conflitos internos que estavam acontecendo com Bella, que chamamos de Objeto Transicional. Algo do mundo externo (lenço com perfume) para cuidar do mundo interno (insegurança, medo). Naquele momento o lenço foi compreendido por Bella como algo que lhe faltava (a presença da mãe), e o lenço se tornou um representante desta falta, por isso lhe trouxe segurança. Esses objetos fazem funções muito importantes no desenvolvimento emocional das crianças, ajudando a construírem recursos internos para lidar com conflitos e frustrações.

Esses objetos podem ser variados e são elegidos a partir do sentido que representam, ou seja, cada criança tem o seu. Algumas crianças elegem seus próprios objetos transicionais (ex: ursinho que não dorme sem, chupeta que quer levar pra todo lugar, paninho que não larga…). Por isso é muito importante ter cuidado ao lidar com esse objetos, para não tirá-los de seus filhos, mas sim apoia-los para que possam perceber quando não precisam mais deles e se possam deixá-los.

A história de Bella revela a importância dos adultos valorizarem o espaço de relacionamento da criança com a própria infância. Essas vivencias de separação, sensação de perda, inseguranças, fazem parte dessa fase. O lugar do adulto é acompanhar a criança nestas vivências e apoiá-la, sem impedir que ela viva essas situações de conflito. Assim ela poderá crescer e se desenvolver.”

 

 

 

 

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Sophie Colombo Souza
Psicopedagoga clínica, coordenadora do Espaço Terapêutico Brincando.
Contato: 5505-0932 / sovcolombo@gmail.com
Insta.: terapiaparacrianca

Author: realmommy

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